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aguardam em casa que o esquecimento não abranja o caminho de regresso. porque não se consegue tocar a mesma melodia de exacto modo: igual. o sofrimento pelo desvio é verdadeiro. é verdadeiro o desvio. é sincero e puro o inevitável contorno diferente do ar. aguardam em casa que sobreviva a cada concerto. e que regresse de modo parecido. parece ser inimaginável a estranha sensação em último compasso, a estranha sensação em silêncio terminal. repete-se o caminho com um passo certinho para que o engano seja possível e brilhante, eterno em instante, memorável, fantástico.
lembro-me. que há instantes em que a confusão é superior, ameaçando a própria confusão na ordem que a possibilita e valida. experimenta soar sem atentar no corpo que a guitarra te oferece, sem observar a pele brilhante da bateria, o ofegante respirar da flauta. lembro-me que terá sido algo desse modo aquela noite





.




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sim

tudo - a - sangue

sim-sim

tudo a sangue e cardo

nenhuma música me acompanhou nesta morada

nenhuma nota clandestina

nenhuma música de fundo

nenhuma frase

na - da

e no entanto sim

tanto sangue sim

tanto sangue - d - água

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aguardam em casa que sopre seguro. morro na rua ao contrário da luz, quando tudo se apaga. acendo. abre-se esta espécie de boca que inspiro expirando som. não deve ser cruel - a vida ser uma morte e o inverso. problemático um pensamento fechado na cabeça querer sair e não conseguir. problemático o gesto que não ascende a um som com significado. afirmar que ando com o saxofone como quem anda com a botija de oxigénio. de pouco servirá se o fim for a sério. complicado é levarmos a sério esse caminhar com a botija. complicado é acreditar fortemente na botija. irracional é o saxofone. estavas muito bonita. não me ouviste mas estavas muito bonita. irracional é o saxofone.


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aguardam em casa que olhe seguro. como uma voz decidida. parecer uma melodia com toda a ciência. sabe-se que um improviso pode ser mortal. a mentira. a mentira pode ser uma bela melodia parecendo ensaiada e sabida. quem sopra jazz é mentiroso. quem o escuta gosta que lhe contem mentiras, gosta de ser levado, enganado. ambos sabem que o jogo é mais profundo, é de viver e morrer, ambos querem morrer a toda a hora sendo eternos a toda a hora. como é que ela enganou o fim, penso, como é que quebrou o previsto, como é que trocou a manhã que se aproximava.


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aguardam em casa que olhe seguro. a direcção em que se aponta o olhar: um desejo: uma vontade. continuo a querer que me leves. a planear roubar o teu movimento. a sofrer com a hora tardia.
o corpo de ar da minha boca à boca do instrumento pode levar caminhos diferentes. o corpo de som da boca do instrumento à minha boca pode arrastar-me para trás de ti. sem eu querer. mas por eu querer, aponta: o segredo continua quieto: não posso permitir que irrompa.

sofrer com a hora tardia é o único luxo após o concerto.
nunca me ouviste tocar. toco muitas vezes para ti. não te digo onde actuarei. procuro o teu olhar por entre as senhoras sentadas nas mesas.






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[ antena de /t , sil
êncio de salamanca, ma
çã da guarda,
sil

ence
is ]








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quando ao som - se fecham os olhos quase sem nós - ao abri-los anoiteceu, mudaram as coisas de onde e as pessoas para onde
e
é provável que não toque mais para ti: que motivo aguarda tanto tempo o terminar de uma melodia?
em torno do saxofone que todas as tardes preparo - impensáveis destinos sopram sem mim
inimagináveis
imponderáveis
como um burburinho
um burburinho de loucos silenciosos
escutas?


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TAC de setembro (TAC janeiro TIC sem TAC


um verde verde claro multiexplosivo de folhas a febre tomando tudo balbuciando oxídrica
rasgado langor residual sempre mais e mais encostada nessa demarcação poliédrica adentrando - explosiva a parir
a carruagem final - da estação que só pára na eternidade


multiplicar coisas muito depressa tresmalhar-transumar
(sem margem de erro
caprinar-farejar-subir-pressentir no vento a precisa-equação-acertar
atravessar-chama ar r


(saber que havemos de protagonizar a floração irregular e a hibridez das florestas os sustentos amedrontados-alaranjados o suspiro-portátil dos medronhos
restos de reluzências fios e lianas aos soluços a crescer em altos de terra vagamente tácteis - take

((as vezes que dizemos eu a extrair eu eu eu de mim real eu nós nós e nós real - eu-me - take me




(desassombrados sulcos de fomes roendo as cenouras
pequeninas resilientes-cânticos nidificando em abóbadas de igreja-fragmentos mutações do discurso amoroso - pura crença de facto, ex-piações -


ai, doçuras de pedra ( por dentro eu de-leite eu de-coalho eu de-azeite eu-me-pão-parto fragmento puzzle o tal discurso que discorre autónomo de amoroso atónito de arenoso a soltar-se do autor - arrepiado-o-autor - sorridente-o-autor, eu de novo parto em-tu - em-tu


sorvo-curvo-éter-pasta atravessar rios existências de asa-avariada
gravidez de gazela-estrela-éter ai minha estrela pequenina e desdobrável - inocente mundo que des-pi que des-sei - que des-prendo


(e tanta-tanta biologia aprendida à custa de gritos rutilâncias-de-rio-signo-seco-de-água-ai (como me ensurdecias longamente ontem-hoje(take-me
à patada-golpe seco vermelho-sangues-elipse-tri-pas

eu imóvel irreversível santificado seja o teu nome-perfeito leito de carne vazia sagrada-vaca - eu real de nós-eu-

(rios e rios de peixe líquido deslizar-de-medo-líquido-medo-de-pedra-cego-
de-

-olhar





(amanhã acabo...) (ainda e sempre - numa

palavra,





.







´estar presente é sempre infinitamente mais poderoso do que qualquer coisa que se possa dizer ou fazer`





2009




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na-tal



não es-tendo estes dias agudos de-gelo



em que a terra as-sim me in-siste e


ex-plica


(não as bi-cicletas não as con-certinas

( nem o veneno nem a letar-gia
(nem mes-mo o harém do de-pois belém




mas antes o corpo - pre-ciso cadáver

( cov-inha-essa-linha sem olho que as-sina








foto de margarida bg




.


quando entrar em palco estarei só - mais só do que antes e mais só do que após
o fato negro, a gravata discretamente colorida
o brilho metálico do saxofone suspenso do pescoço frágil
não preciso de mais nada
e de rigorosamente mais ninguém para me sentir morrer
e inevitavelmente repetir todas as mortes todas as noites como se fossem a primeira
única
fatal
final






hoje
agora
o último sopro




blas-
monologue



aqui assim sozinha e de repente
sem recurso a qualquer autor

artista ou mesmo cidadão

apeteceu-me


consumir combustar consumar
e por fim
proclamar

o lado burlesco da s arte s consagradas
a duvidosa construção das épocas e do sagrado na s arte s

repito

na s arte s


e rejeitar com clareza o pretensiosismo a finura

o bom gosto os bons públicos e toda a corja associada
e todos os pr ismos associados
e também sim senhor a muita hipocrisia dos meios
a sua elefantíase estúpida e colossal
ah e passem passem bem, passem mal bem
ou passem bem mal

e com licença

deixem-me lá passar agora a mim
que
tenho que ir ali a taiti fazer xixi






[[prescriptum: o que mais espero dos dias?
[? o que maii-is:


vivo de morte natural


?









morro-de-vida-natural
)tanto faz zzzzzzzz)







?

((no peito sus-peito há só brin-ca-a-ar
(ma ra vi lho o o o
so-
-l-amo-faro-na-do
-l-imão)sol-ar-cor-po-cor-
-ação-gló-ria-sede-boca-re-de


pei-xe-corr-i-mão-corpo-ré
a ccc-ção





)agora-agora, mes-ss-mo-ora-ag
ora


que-oferta-ver-bo ( agudo-regaço-traço-ama-
s-sso-esfa


relo-fa aa-enl
aço?













]] que se tornem noites: espero fervorosamente que se tornem noi tes: noiii te[cerrada]três-quatro-dois-pois
fala-muito-aqui-sentad-a-ama-muito-aqui-sentada-sem-mais-sem-sais:

mal---se----pica---então--------(era------a----menina------------ui------------------ui---------z--------z---------------------------------no---------z)---------ai-ai---------------fuso----------------me-me-------------que------fuso-l-uso-----era-----------------------umavez---------------------------ora-h-ora------------quer-------bem-----me---------qu-er----------toc-toc------------zig-g-----------------z---zz--z--------e---------r-------------a---------u---m------------a-------------v----e--------z--

.




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outra pergunta: outra resposta:
porque raciocinio tanto toda a melodia: porque desse modo se sobrevive até este instante
recordem-se todos os momentos em que o toque foi sem cuidados: várias noites amanheceram em sangue
outra forte probabilidade: nenhum artista sobrevive sem corpo
outra forte probabilidade: um artista pode não ser um grande homem
outra forte probabilidade: perdição tem relação próxima com estar perdido
outra forte probabilidade: quem não queira encontrar ou ser procurado
outra forte probabilidade: a confusão ser um sentido de vida
várias noites amanheceram segredos enormes

faz-se a indecisão sobre a voz que deve soar dos lábios, soprano ou contralto, o fino lábio ou a entranha
recupero melodias: engenho curvo, engenho de frio descendo em pálpebras, soprador

é igualmente provável que todo um corpo seja som; e que o sopro seja som; e que a sensação seja som; e que quando me tocaste foi som; e que o que te quero dizer não possa e seja som;

suspeitar de um fio interminável talvez em novelo mas que se desvelando à medida que se inventem dedos que o suspendam e o desenrolem
a imensa probabilidade de que o tempo
o sopro
existam para além de nós mas apagando-se quando o último soprador se calar
a dúvida sobre que som surgiu primeiro
o som ou o silêncio
o meu sexo ou o sexo dela
a sua boca na minha ou a minha na dela
é provável
admito que tenha surgido o soprador e depois o sonoro engenho tubo curvado
mas o soprador fruto de que sopro
da sua boca

em tempos o ritmo da frase orientou o do som o da melodia; o músico respirava aquando o silêncio no poema, o saxofone por inventar suspendia-se com a vírgula, o ronco entoava a palavra amar ou a alma abandonada
um engenho de frio descendo em pálpebras
em tempos a voz humana era uma lâmina de corte: todos os acessórios instrumentos amparando o golpe
torno ao tubo curvo como se regressa ao de onde se nunca saiu - duvido que exista algo para lá da alma espantada, do seu pulmão, da sua respiração, da sua garganta, da sua boca, da língua, dos seus lábios cortados, dos ouvidos sobreviventes, da aranha dos dedos em chaves de pérola, do frio do tubo, da curva que entorna, do engenho de frio descendo em pálpebras, do calor nas costas transpiradas, da sensação de póstuma paz, eterna
em tempos fazia-se música assim: assim
a métrica variava de acordo com: de acordo com
a improvisação era imanência: imanente
o tempo: o tempo
a alma espantada é uma grande atrapalhação: por onde sai se tem que sair: por onde se organiza se tem que se orientar: o que é o som que me aperta o peito sem o engenho de frio descendo em pálpebras como: exercícios de mecanismo / exercícios de dedos / exercícios de articulação / exercícios de escalas em intervalos de terceiras, de quartas, de quintas de sextas, de sétimas
à segunda-feira o calendário inicia de arder com um pouco de gelo nos lábios






oper a ]ção












agora folha agora[esquecer perder-se de entrar









rosa-quase-romã-self-muro-cova-de-cova-h ábito-dro ga-agulha estile te pinça-dança-agu dição-de que fug imos-porque cor remos?








? prende-o-

chora-a-carne] ? porquê






verde-rosa sister-ana quase] estasiaaaar en talar
es ta lar es te lar ? pa rar-parar






[ di os pi tal ar - bi sturi ar - des abar
karma-retalha-cama-chama-palha-plana








carne s carnes dormit [aaaar





[almost the same almost [as complex as-she she said
she said

[the]


car][ne s quase-nada-[des ancorar-des] abraçar
[nada-quase-carne-de-andar-por-casa-chora-carne-des colar-sair-de mitir-in sistir-e-cuidadosamente des em balar-re partir-re parir er reess-es sess ossos ser [porque corremos longe de nós ]des engonçados?

(ess ência-essere

[aa ar ririr rir-ser grão-de-pó-sopro-só]empty-empty-ocal-acordar-vazio-cheio-de-amar-arir-arar
(acaba-acaba (viva) a cantar (e logo-logo - chorar-acaba-acabar






[ 2 fotos de composições de alexandre m


.




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o corredor de melodia entortando no edifício de metal dourado junto ao cotovelo como o sexo curvo, o meu sexo curvo é simples artefacto de sopro e cortá-lo como com uma faca o pão a pele amplificando-lhe o som e o silêncio (pensamento enganado: ao foco o esgar é de gozo), simples e mágica engenheira descoberta construída: evitar concordar com a palavra após o som, depois da melodia os lábios se abrirem a explicar não se deve - ridículo fato o músico que conta o que: a questão: o que nos faz tocar?: a questão: o que nos faz tocar?: a questão: o que nos faz saltar para os seus lábios? (aqui é o músico descansado no seu sufoco quando se lhe aproxima uma língua: pergunta: o que nos faz: tudo corre bem mesmo o que corre mal quando surge húmida: pergunta: o que se realiza para o tubo metálico: e porquê: porque rebenta sempre todo o mundo quando poderia rebentar apenas um poucozinho dele, a melodia ser apensa metade de mim: quando inicio a frase e ela se entorta para que direcção: espantando: espantando-me: quando inicio o som e ele lelelele para onde e eu a ter que o seguir acompanhar procurar entender emendar compensar: jazz, dizem, isso é jazz: sofrimento, afirmo daqui calado enquanto o quê quê que: enterrar-lhe o meu saxofone torto: enterrar-me no meu saxofone torto escondido no tubo de metal: já não é o summertime: deixou de ser o all of me: um som estranho:



















quero o que já não ? há ( o desrazoável fruto inteiro e doce escorrendo baba


( não a razoável pequenez dos sesesesessssss sês

quero tudo tudo ou nada nada



e ? não ?



tenho no pé este amor ridículo

amor de filme esta

terra antiga de longa solidão







( o meu próprio lótus (( noctivação

? vermelho abraço (

) corpo pendente cama de linho

a escorrer na mão








electocar-diograma









entre os mais pre-visíveis

card-i-o-ba-ti-ti-ti-la-ti

-men-tos )

ouço no meu cor-ação

a bruxinha en

-carnação








( a-a só a-so-a-so-le-tr-ar-

-fo-lhe-a-r-divagar

o meu
nome

( c-ardo-ros-a-en-carnado-limão

















ninguém beija

ninguém beijou

ninguém beijará



[ nunca houvera nada pra ser bei[]jado




chove chove em mim secamente

raspanete de deus ladainha tridente

[ messa di voce raining balls

es [ tás cá? - pre s sentes?

seta pé-nosso moinho-pinho des ata ave



[ avé-maria salvé-

rainha-harimata men] [te















http://www.youtube.com/watch?v=ZCdJQu4ycC4

http://www.youtube.com/watch?v=CgImxdZlAcA
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o corpo sentado debaixo da clarabóia sentado na sua história.
a luz que o ilumina é casual como acaso é o tempo presente.
fora uma surpresa a céu cinzento em manhã tão promissora

há questões que se não devem colocar pelo elevado risco da imobilidade:
o espanto, o estampido, o congelamento momentâneo

já foi um problema aprender a ler e aprender a registar - ao homem sentado no sofá deve interessar mais soar o que houver que soar, uma melodia maior do que uma cobra grande ou uma corda grande ou um fio a perder de escuta dando já várias rodas em torno da erecção

há questões que se não devem colocar pelo elevado risco da imobilidade:
o estojo do saxofone fechado sobre os joelhos
debaixo da clarabóia o homem aguarda que ela chegue




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há a voz, o seu registo, o âmbito que vai do primeiro ao último som, do mais grave ao agudo; parece evidente a melodia ser posterior ao rasgo de dor, ao impulso para bailar,
parece transparente à notação como expressão de um grito, de um riso máximo

contido pela garganta profunda conter toda a rouquidão de um peito a possibilidade de um saxofone tenor; menor é a voz contralto na suspensão constante do que sentir do que pensar do que entoar – ocorre que se pode vir a ser sempre pior, ocorre que não será bem verdade o império da emoção, jamais um solo se constrói sem domínio apurado de todas as chaves de todos os dedos de todo o saxofone

em viagem, em regresso tardio como uma espécie de fuga (melodia que se persegue a si própria, melodia que permanentemente persegue outra melodia) surge-me ainda a sonoridade do saxofone soprano passível de se arrumar mais facilmente; de aguda lâmina o corte assumido de vez, o sangrar assumido de vez, a dança feérica tombando sem concessões para o nível máximo, que o baile do sangue será inevitável em festim primeiro e último, em fuga de quê em escapando porquê a sua dimensão permitirá outra leveza para que direcção, muito mais fácil de arrumar na questão de que bagagem para que viagem

na janela de todo o trajecto nocturno o reflexo do que te vi durante a tarde
devia ter tocado os teus lábios





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noc te (s












doce de

a



a




aa (a


lu a a lu xxxxxxxxxx()xxxxxxxxxx









fot1 der mond _felix mantel 2 helene knoop´






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comprei um saxofone soprano em segunda mão;
é velho;
tem um defeito: uma chave que abre tardiamente ao toque - dá um efeito precioso à melodia bluezy e que raramente se consegue com apurada técnica;
paguei muito menos pela imprecisão;
fingi que era grave;
era grave mas para mim não;
nem a mandarei concertar.
comprei palhetas perdidas há quarenta anos na loja de um amigo; já não se usam, não se usaram de certeza, não cumprem os padrões das grande marcas actuais;
de tarde fui ver-te e ontem à noite fizeram as palhetas no saxofone soprano a delícia de quem me ouviu.
a ver se entendo:
o valor da circunstância ser o que é e fundamental.
magoei o lábio de horas a soprar.
havia de te ter beijado.






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em comboio de
clinado ( re main



do amor só tive vontade de consistir não das canções habituais, mela, mela-mela-melancolia não me lembo quem canta isto, old skin for a new cerimony?, esse sei mas ao contrário como me apetece dizer ao contrário, waits não, também não, bem já não sei,
do amor só tive vontade de consistir sem melancolizar, nem de incendiar nem de mais insistir.

não quis solos elevados de amor, nunca me registei para arrancar cabelos das palavras, desnudar-me em sonhos, fotos de tangos tangas brilhos, a piscar propostas erectivas aos leitores de poesia, ou a propor, por exemplo a dizer, como li, que se parte ao meio e é sempre um só, o amor.

[ porque disso que mais vi, nunca cri?

o amor é sólido e tem pezinhos claros e acastanhados do chão que pisa, sujinhos, o amor é quente e frio e há-de soar sinos e dançar trevos ao vento e ser neve ao relento e ter palha no caminho. agora cada um vai no que crê e sei que

morrerei, é claro, de crenças impossíveis.

ninguém dará conta, pouco importa que morra um ou dez, somos sempre muitos e substituíveis - se se quer matar porque não se mata?, direi apenas que sim, que de qualquer coisa se morre de repente, e waits, de repente me lembro, invitation to the blues era num bar como vi aí num texto que me recordou, é extraordinário este combustível pressuroso da memória, scrambled eggs with tears, e os outros, malapedie-mela-melopedie-melancholy, einsturzenden neubauten, há-de ser mais ou menos isto assim escrito, depois zazouei de ouvido she´s like a swallow, sim, parecia-me amor aquilo era igual ao meu amor visto do baixio mais líquido de mim, do meu estar de cócoras mais açucarado, de olhos em bico no semi-pantanal oriente de canas efervescendo,

que tudo é como quem diz qualquer outra coisa, mesmo no avesso de si.

que sou daqui a poucas horas? a mulher dos gatos que enrola a língua a falar com eles, que tem toda a razão de ser a velha e os gatos, mas o mundo expele tais seres, cheiram a xixi e medo o mundo quer outros amores que não os da natureza, quer os que ficam ali quietinhos, mexe, mexe, não mexe, não, névoas e meninos que prometem enfados e corpos que não existem onde sejam perfurados e depois onde se veja o lado proibido o sexo estropiado, alinhado igual a carros crashados, esfumeganfados, para que quereria a mulher dos gatos o mundo para que serviria ao mundo o livre arbítrio da mulher dos gatos?

[[ que pouca importância dou à morte, vivemos neste parên][tesis recto, disse alguém, digo eu neste padrão, cada vez gosto mais de escrever entre parêntesis, escrevo-os e já sou outra lá dentro, saio sempre como os maluquinhos,

o zé maria snifava o ar e de imediato se embainhava de tropas, os trapos da sua guerra permanente a passar, as continências - as continências! as desinências nuas no convexo parêntesis da porta do hospital, acudiam-lhe arpões, ferros e cadáveres, facas, artilharias de ordens várias, gritava até a garganta sucumbir à extensão esfacelada, cavernas ecoantes de tímpanos até ao insuportável, e sei, bem sabia que temos que morrer de qualquer coisa ou por ironia - sempre preferível, do seu contrário.

que não arranjo desculpas para lhe dar à ponta dos dedos que digo ao corpo que nos pede abraços e repete e chora e nunca mais se cala ?

[ vou ali morrer e já volto, digo-lhe e ele ri-se não acredita, mesmo a ver as pingas mais grossas, o lago pasmado, não acredita que lhe traga um abraço, tenho esta vergonha de não ser capaz, de ninguém estar aqui ao lado, de tudo o que trago é pouquinho, dizem que é para resignar sei lá zé maria, tu sabes? queremos além desta lama, desta pedra na mama indexada, intextada

[ de que servem as sólidas paredes tóxicas de lava acumulada?,

vou agora ali num instante que morro crente que o maior amor é dum dia pra frente uma vez dois e, por outro lado, bem mais que dois - um e um não são nunca dois, é também tudo e sempre, afinal, sempre, sempre rio virgem, mas enquanto de abraço nem sombra, vou ali e volto ou volto que nem que não volte nem sei, ou sei, nem logo se verá.




Einsturzende Neubauten - Die Befindlichkeit Des Landes Live





ex - it -

dentro do sono as < > somo


ex - ito - miau - ma - cio

ro - lo - bola

dou - ble

do @ bo

cauda - nu - velo

- mant - r - a

ou -

- tro -
( a



(









vejo com pasmo
[ e confirmo com
previsto agrado

que baste

[ que em nada baste
que as palavras se destapem
dos seus corações em cio
e mergulhem facilissimamente
no domínio comum das bocas
seta recta a perfurar códigos de espaço

[ assim inaugurais
infladas de corpos
insignificantes

insignificados


refirmo a confirmação de como
em quase tudo
[ em todo o quase
da sua génese à quase possível verdade
nos enganam tanto a trocar de olhar

mas sobretudo

como por vontade nossa nos queremos enganar

[ e estendemos a ondulação do pescoço preliminar
assim
tão perto a ler

as órbitas multilinguais

dos signos que julgamos

amestrados







[ fot sweet serenity of books linda veit

Às quatro e meia em ponto tenho um aluno, às quatro e quinze repego no saxofone, farei o aquecimento, que pautas lhe proporei.
Anotei mais do que uma vez: um grande amor e seria sapateiro.
Um grande amor e seria merceeiro ou bancário.
A janela aberta para a noite, o seu corpo deitado em lençóis adormecidos, a vontade de tocar.
Silenciosa.
A vida continua a acontecer connosco dentro.
Continua-se a surgir com vida no interior.
O instinto de sobrevivência faz quase tudo.
As cartas ligam aos astros e estes a uma das faces.
A poesia é uma das faces.
A música.
Fazer de um desses modos o modo único é a morte.
Às quatro e meia em ponto tenho um aluno, às quatro e quinze repego no saxofone, farei o aquecimento, que pautas lhe proporei.
Mas, repito, um grande amor e seria sapateiro.
Silencioso.
Muito silencioso.
Pela palavra surge a rima, a ondulação, a hesitação, o calor ao ouvido e a erecção inesperada, a convicção assertiva, a multidão, o silêncio barulhento, o silêncio absolutíssimo.
A morte continua a acontecer connosco dentro.
Continua-se a surgir com morte no coração.
O instinto de sobrevivência faz quase tudo, tem andado comigo, tenho andado com ele por aí, por vezes muito ao longe.
Gostaria que tudo terminasse atrás de um balcão.
Beijo.



.
















este cachecol de silêncio que há dias que já não cabe em nenhum lugar


continuo a tricotar esta luz que aqui me arrasta - aqui sentada


( coisa tão rara - onde já se viu uma cabra converter-se a tricotar!?


diz-me - diz-me que me embrulhe e me vá

( diz-me tu que sabes tudo e vês que sozinha não chego lá


diz-me da planta destes dias onde perco a credibilidade de respirar


- são muitos dias em que o cachecol e todos os casacos já não cabem no corpo desta casa


- fala-me, por uma vez, por muito que te custe e mesmo que já não te saiba a nada,


mesmo que pra ti seja eu toda um apêndice extra-horário,


dá-me tu essa voz, mesmo que esfarrapada, é quase inverno afinal,


dá-me essa língua mais audível, traz-me coisas simples - lavar, chuvar, aguar


e diz então que se for de ir me vá - enrola-me na cintura e onde vás,

despenha-me do ar,


leva-me à boca de tudo à boca de nada,

equivoca-me o erro, aperta-me a mão,

rouba-me na fonte - à lã substantiva comum das palavras -








.











lu-g-ares



onde teu nome est-en-de

man-ta


( flor-d`água c-anta






[ fot
3 canais
e
pé-d-água-flor







( fonte de aldeia
pedra colo
supra
ter r a a
noi te cer
( sou rã sou charco
met a de







nascer






)( amar não é acto de
vontade
)que só sou
ser
declínio de estação(
actus in fa c tus
ac
on t ecer






[ fot in clin ações
.











que o levasse
ao grande rio

e a seguir

o ondulasse
( assim sem mar



nome que havia
a meio leito


gruta de peixe
água tecida



( fita-menina


a murmurar











[ fot romã-janela à foz do côa





.








Rosa rosa rosamRosae rosae rosaRosae rosae rosasi i

rosa a a a

RosaRosa rosarum rosis

ros

is a a ros

is








rosa de Birgit Bertram



.

(a melodia de um blues atravessando a casa velha em frente à janela aberta)

há erros que músico ingénuo comete com frequência
julgar que tem algo de novo a contar e que mais alguém o não sabe ainda
amar-te é mais antigo do que nós
mais fundamental do que esta casa antiga
continuar à janela aberta não nos protege da morte mais do que se a fecharmos e sairmos de mãos dadas para a manhã
e um saxofone tanto faz num blues como um blues tanto faz num saxofone
o medo é nosso a hesitação é nossa a decisão é nossa
a manhã é nossa se lhe sairmos de mãos dadas fechando as janelas da casa antiga

há erros que o músico ingénuo comete com frequência
explicar o que toca e deixar que experimentem o seu saxofone
oh, baby
deixemos o blues voar
deixemos o blues transformar-se
deixemos o blues inventar-se em jazz
dá-me a tua mão e saiamos para a manhã
vamos errar juntos
o meu saxofone e a tua voz
há erros que um músico não deixa de cometer
errar até acertar
oh, baby


.









inseminar

as articulações da rosa
por exemplo

incircuitar
a ondulação nua da erva-rente-à-erva
farejar dias a fio
esta palpação atónita nómada aguda
silencial

inexplicar

à placenta roxa da manhã
o impúdico sonambulismo dos teus olhos
lenta luz intumescendo as cadeiras de palha


cair-te
ao cair da tarde um gemido surdo
agreste e pálido
espiralado
-ritual


avé cheia avé sim avé túnica azul
avé-Maria-tão-
-Grassa-única-ave




.







acabara de escrever uma lista ENORME de letras
que poderia em qualquer momento
TRANS formar num
poema

[ era assim COMO uma lista de compras de muitas palavras
sentiu de repente aquele IN cómodo
AQUELA in definida in exacta IM propriedade
[ como SE naquela MEIA dança

ir ROMPESSE um súbito paradigma de cheiros
in suportável IR resistível IN contornável a MAR a porto a
alho a céu a GRUTA a dor a talho a gás a gás a
mar








fot r doisneau the cellist
1957

saber tocar é preocupação posterior;
primeiro: obter um som: e vale tudo - o sopro inteiro, forte, com medo do teu silêncio.
muito mais tarde se percebe que em casa vazia as crianças correm e jogam às escondidas;
será sempre uma memória:
a primeira, a mais fresca, a mais sonora

é andar por ali como se um fio nos atravessasse
e me balançasse sobre a proximidade
suspenso
uma melodia é essa nota a seguir de outra antes dessa
gostaria de soprar-te uma melodia que ainda não sei qual é
perto do teu sorriso surgiria o som
e depois é segui-lo
é ser seguido





TAC








[ nasço de ti como te ser-me

eu que não sendo a mulher do circo era por acaso o produto duma vaga subtracção de aortas e válvulas

eu

extasiada estudiosa alheia a estores de pálpebras

assim maníaca de meias luas de repente sem contar a reconhecer a outra a balir a declinar assobios

lúbrica espantada teimosa apalavrada

dedicada a rasgar paredes para ouvir melhor - à unhada

a esticar-se à frente a todas as frentes para ver melhor

à cabeçada

traduzindo incógnitas à escala de carnes e planaltos eu ela

afogueada

a responder esfinges solitárias

candidata a rezar ( te
[ costurando nas sombra cestas e cachecóis de interminadas palavras

eu e eu

a accionar botões progressiva a insustentar costumadas mesuras ao verbo pensar ( take me

[ a esgaravatar
a prática milenar das ervas miúdas do efeito incógnito na vastidão dos cruzeiros na estrada forrada de lãs brancas bolas de nada

eu atravessando a garatujar

[ no meio das praças a fazer-me sem pejo às giestas a acender fornos a pesar demoradamente as

entradas a suplicar ( take meeeee e

a estrebuchar a sociologia contemporânea a aridez de plástico das teorias da literatura cada vez mais de mim alongada

aparatosamente debruçada na

epistemologia redonda do luar

ainda ao colo de bourdieu íntima de castells pela mão de roland barthes

[ inquietada e porém

ao seu colo a temer alturas a medir precipícios e colapsos
por via do curso de milagres mais aplicado do comprovativo textual e do

outro comprovativo que ignorava:

ela a outra a nascer a convite de si bamboleando gestualidades magnética e oriental

testemunha atónita da polissemia do instinto

do sinal inadiável de vida que se gera debaixo das camas parindo exigências a gesticular

onde
os pequenos monstros são afinal
um pacotinho policromático de infância de terrores decadentes de contos de fadas onde

os desígnios mais extraordinários se vestem do que anteriormente referi:

assim sintetizando a súmula dum caleidoscópio que não pára

[ a ser ela mulher no avesso sem duvidar da existência duma verdade final ela horizonte a requerer com urgência a incontornável visibilidade da marca


ela

a balir eus eólica esfumada a farejar o rumo transumante dos silêncios no rio queijo a esculpir-se da mão a sonhar ninhos na palha

a prescrever as mais bucólicas dúvidas à psicanálise

a reabrir escriturações tubinhos de sangues primordiais conservados em caixas

infantilmente inconclusivos cientificamente improváveis:

ali onde até bettelheim sorriria complacente e incrédulo desta branca de neve

espalmada

a marcar passo

a gaguejar níveis zero muitos níveis abaixo do mar a uivar penhascos vivos de marés no teu corpo prensada ( take take me

ela

inexistencial inestética a escorrer-se da coalhada das tardes
[ tão já nua conventual neste sair branco trânsico suave como a nascer da imaterialidade num claustro

duma cápsula imaginada

[ que branco mais branco não haja

[ referente enigmático à tipológica brancura que faz
cegar:










[ texto em des construção,

na mira duma

palavra [

há tantas tardes que fecho qualquer livro de poesia.
falar de algo que se conhece:
não é difícil improvisar sobre o tema, misto de conhecimento teórico e muitas horas de prática de interpretação e experimentação instrumental.
descobri, há anos, que num solo tudo é possível; até o impossível.
ainda o mais difícil: o possível:
a sucessão dos dias.

com uma certa experiência, consegue-se adivinhar o adeus, o silêncio, os dias distantes.

sempre que me lanço a um solo de morte
ando com o teu nome, ariana, de um lado para outro

nem sempre me lanço a um solo de morte:
o sabor da palheta é igualmente amargo
e a manhã










ariana não vai à praia


não usa saia

ariana usa pernas

vestal restolho aguçado

saca do vento

alento

ariana é fio dental

desaprumado tampão

desnatural

ariana está por dentro

do labirinto do

amoramento

globalmente

morre

ariana

de sede à margem do rio

de fome

não sisífa nem tântala

labirintada

tarantular

aconca vada

já não precisa

nada

ariana de qualquer modo

tauro mático mino

ariana cria ana olha o

firmamento

agora

ariel sem canto endeixa

moldura se areia

enleia

enternecida muda

sereia








foto view from two rivers stephen hickel

como cada pedaço de coração duro
como cada pedaço de coração impuro
mudo de casa para os sons que vou escutando e para outros que quero soar
ao sopro da boca dos lábios
ao toque dos dedos
no raspar do arco nas cordas
ao roçar do arco nas cordas
mudo de espaço:
da sala ampla amarela procuro divisões ténuemente escuras
divisões de penumbras
subo as escadas com medo
lá em cima a casa é outra
desço as escadas com medo
lá em cima a casa é outra
não esqueci a voz da tua noite
não posso é distrair-me
como quando subo ao palco
como quando desço ao palco
ressurge o eco que me pergunta pelo destino










assim ESTRONDOSO de ausência

refluxo SÚBITO alerta

roxo cobre vegetal assim

EXPLOSIVO de aberto

(flecha pulmão todo SEXO

assim teu ombro de fronte

veias de lua JANELA

(SER de sem ser outra coisa

PARTO fogo pergaminho

COMETA que se esfarela

alva LUZ manhã teu sangue

romã nua chão da

TERRA






foto fire Marco Eckstein

um milhão de palavras não tapam um vazio;
um poeta diz: sou um poeta: quer dizer: socorro: quer dizer: há poemas que peço socorro: e nada:
não escrevo: um buraco: um rasgão: um poço: escrevo: um vazio:
como um frio no interior do osso, um eterno frio:
ou uma ausência no interno osso: uma omnipresença em cada gesto: a vontade constante de um abraço e de encostar a cabeça fechando os olhos num sossego para sempre:
uma pele que nos tape como um suave lençol.
há sentido de vida para mais uns meses;
isto quer dizer acordar sem questionar o que fazer;
realizar o que houver com a sensação de leveza;
como um entreter;
um passar tempo; quando damos conta é noite e regressa-se a casa;
venho enchendo a boca de histórias.
para a madrugada abro dois vinhos tintos em prova doméstica
um da bairrada
outro da estremadura
um camembert
acaricio-me a cada sopro do teu dormir:
se te beijar
se te beijasse de novo
beijo-te e fujamos para longe:
para uma casa ao longe:
para um sítio onde se possam inventar novas manhãs, novos gestos, novas mortes:
como queria morrer de outra forma:
não é silêncio: é silêncio que: contá-las: saem de dentro do vazio e o vazio continua vazio mesmo quando cheio de histórias.
não consigo explicar melhor que mais cedo ou mais tarde serei tarde, que é sempre tarde
um filho distrai o tempo
uma pele que nos tape como um suave lençol debaixo do qual se possa adormecer
o modo como coltrane soprava a melodia em torno da oferta que o piano e o contrabaixo
conto-te já uma das histórias:
toco com um excelente guitarrista que tem medo:
outra das histórias:
toco noutro grupo com saxofonistas inexperientes sem receio algum:
outra história:
venho anulando os ensaios com o excelente guitarrista:
erro que nem merda com os saxofonistas juvenis
escrevo:





de cor rente







? vês bem que não minto:

que de mim não sei

saída:

transparente animal

vivo d´ ecos: invisível:

atada ao pasto esguio de salomão

me rogo à luz que

a lua não tarde: que:

depressa expie este amor carnívoro:

plantação da língua

no frágil pulso das letras: e

apelo à terra: romã semente

e chuva: conjugação:

suplico:

- a tempo de ser tempo

me traga limpa a serra:

a casa:

levada: rio frio

íris turva colisiva

( lê meu lobo raíz xis )


e jasmim: vinculação (





.





/ chove-me clara

água


serena
auscultação


do tronco afilado


infinitesimal

voz

( suave murmuração

radicu

lar





foto broutons sous la pluie honey

aconteceu hoje ter tocado uma melodia superior a mim.
de vez em quando sucede este perigo de morte:
confiar, preparar levianamente na pele a necessária entranha do solo, não estudar a escala para o improviso.
a grande dor surge no final do concerto. há músicos que se assustam tanto que jamais regressam.

a que serve a confissão?
a quem?
a grande dor surge depois – a saudade não aproxima. pensei em ti enquanto tocava, pensei em ligar-te para me ouvires.
aceito o jogo, será sempre vital o sopro que eu for.
saudade: é verdade que subirei de novo ao palco um pouco mais morto

.







meninos









foto h cartier bresson madrid 1933

(e, ajoelhando, pergunto:
de onde vem a tua voz?
de que deserto surge a tua canção?
como percebê-la?)

todas as noites te traio no longo comboio da infindável noite do teu sono:
anotando secreto a perda de destino (desculpa):
tudo pode desligar-se enquanto dormes: o candeeiro, a flor no vaso em cima da mesa, o meu corpo satisfeito do teu.

a esperança une a fronteira, o limite. a esperança é o amor.
o amor pode acabar.
este poema pode terminar.

insisto esta noite (e não em outra noite)
insisto:
a ideia do destino certo - ser outro:
da impossibilidade de se tornar atrás:
do futuro em aberto ser a morte acertada
insisto esta noite, agora (e não daqui a quando)
insisto na ideia de que um poema ou uma música:
um poema ou uma música:
um poeta ou um músico:
podem não ter valor algum
tem ganho em mim sentido a vontade de rezar e não o percebo:
nem sei:
não entendo a actual urgência
li ontem (não agora,
nem há muito)
do gesto de ajoelhar como gesto íntimo,
como as posições sexuais do teu corpo
da forte vontade súbita de ajoelhar em qualquer lugar abrindo os braços
e rezar

é incrível o imensurável desequilíbrio do corpo
a eterna necessidade de um muro de uma parede de uma pele
de um ouvido
de um sexo
de uma voz
contra o qual se mantenha numa espécie de:

só assim se compreende o que:

é insaciável a enorme ausência que o constitui:


é a tremenda falha que anota o fantástico poema e emite o espantoso som
como se no eco
no eco

desligando em paz
não importando mais manhã alguma

inconsolável

.






.


toda laranja me sumo

as palavras que se torcem só eu as oiço

afinal:

corpo inútil ante pio: bipolar

bioquimia

morno rio extenso riso

adrenalina

vitral:






.

.









era assim como flores

balões


prisões [


como garras


como cidades

a

respirar


desnorteadas







foto de Graça Loureiro

e:
QUE MAIS?
qual o bicho que troca um errado destino conhecido
(a casa, o saxofone, o cansaço)
pela promessa de um beijo eterno?
a tentação da resposta
a tentação da resposta ser evidente
a tentação da resposta acertada
muitos poetas morrem nesta questão

guardei o saxofone na sala desarrumada





atravessa-me um zumbido de surdez: a interminável tarde





custa adormecer um corpo cansado




(fechando os olhos revejo todas as melodias experimentadas)






as linhas que anoto procuram mais uma vez explicar





o quê





se tivesse passeado contigo





se amanhã te encontrar o olhar





que invenção podem ser os meus dedos nos teus nos meus dedos





não há verdadeiramente um receio:

entendo que não há uma paixão menor:





mas um destino errado conhecido:




a boquilha, o tudel, o sabor seco da palheta, o movimento independente dos dedos, a cobra que da boca sai em sopro e ao ouvido torna em língua surda de

o apartamento, a filha, a chuva lá fora, a noite no olhar, a distância a percorrer, o esforço assente em passado já gasto




a solidão da surdez



.







smoke is nice



smoke gets out ] off [ your



eyes








[ foto: Jakob Terlau

e que mais?

apetece fumar

será sempre início ou final, não quero saber, a meio deste caminho a meio de meio qualquer:
só apetece fumar

uma vontade de leveza que me provoca um ligeiro bater de asas interno
quase secreto
de penugem
de penugem certa de se ir a lado nenhum
certa de jamais partir
certo divertimento pacífico:
um mezzo sorriso de satisfaction

deve ser como fumar depois de fazer amor
mas com menos cor

eu que nunca fumei

como nos filmes

e que mais?
que outras coisas sabes de mim que não sei eu?
que outras coisas sabes de mim que não sabes de ti?
há este imenso relvado comum
ou este quarto escuro comum com este colchão de sombra nos nossos dois corpos

há esta sala profunda e comum de onde a flautista sai a chorar

que queres que conte?

que o final de tarde sou eu sentado sózinho no relvado incomum
a perder de vista
que o final de tarde sou eu sentado sózinho na sala profunda de onde a flautista saiu a chorar
e:

devo sorrir?
devo fazer de tolo?
devo baixar as calças?
devo escrever versos de merda?
devo sair a correr (em que direcção?)
devo inventar a felicidade?
devo pedir desculpa?
devo ter medo de ter medo?
que sabes de mim que eu não sei?
que sabes de mim que não sabes de ti?
que sabes do meu sorriso ao olhar-te no quarto escuro comum com este colchão de sombra nos nossos dois corpos?

que queres?
o final de tarde sou eu sentado sózinho na sala profunda de onde a flautista saiu a chorar:
nada

e nada beijaste

.








a perspectiva da polícia interior



a que salva inteiro e devoluto o medo


a que

o

multiplica e expande na alma da carne



[ contra ordenação na boca da

flor nos dedos





as flores perdidas


as flores parecem perdidas


é incrível que se não perceba que as flores estão perdidas



o que faz com que se não perceba
as flores perdidas
bonitas



(deve faltar-me paciência para flores bonitas perdidas)
quando o caminho certo é evidente
(quando o caminho certo é evidente)



incrível que se não perceba o caminho certo
para flores bonitas


para flores feias


para ervas daninhas



para todo o jardim






onde sofro

agora: do céu no céu da tua boca

do que tenho medo: para além de outros receios:

da alma no céu da tua boca: de que a abras e me sopres as tuas núvens: aquando de um dos teus gemidos

(e não posso faltar ao horário no trabalho, ao compromisso do dia, ao relatório profissional)

da alma no céu da tua boca: que ma engulas aquando a tua língua em passeio pelo meu lábio mais frágil:

(e não podes aguardar eternamente quem não chega, quem não está, quem não vem, quem não surge)





te deixe eu pássaro à espera






me deixes tu saxofonista perdido





agora:

mais a sério:





queria tanto estar contigo como se não estivesse





mas já deve ser tarde

amor




[reinicia de memória a melodia que no meu corpo suado entoaste de olhos fechados


mil modos têm os dias de anoitecer. e há uma espécie de mecânica




para encontrar um termo engenheiro




há uma espécie de engenho sob os passos que se tomam da luz à sombra




e esse mecanismo é de relativa fácil montagem inconsciente e sub-reptícia instalação




e não é ironia




ou




o quê







assim: todos procuramos um sentido




pensamos nós que o escolhemos




que é o modo mais lógico de continuarmos perdidos




quando saio pela manhã de casa vou tentar cumprir um destino




que não interessa para nada




mesmo nada




porque está errado




não é importante a música o teatro a dança a pintura a poesia a escrita




mas: pergunta: como faço para voltar atrás?




como faço para voltar atrás sem morrer?




ou: como emendo o passo?




como emendo o caminho sem ter que morrer?




e morre-se por falta de companhia nesse trajecto.




simples.




não é ausência a água ou o pão.




mas a companhia.




simples.




e no momento que agora sou como destino não posso errar.




ausência por ausência parece-me que esta é familiar.




simples




o amor parece ser importante.




o amor amplificado.




nada mais.





.










the book of life





foto de robert parke-harrison





.



.







queria assim esta lisura antiga
concreta e


vegetal



onde o silêncio

- surda implosão



se estampasse

- em todo o lado


horizontal







foto de nana sousa dias




@






trezentos kilómetros:
novecentos mil kilómetros

inúteis

a voz na tarde

inquisitante

(mezinhas e murmúrios
odor arcaico de horário

vai atrasado o texto vai a direcção por tomar)

a urgência turquesa do mantra silvando à perna azul do pneu o fumo
distar-se

futuramente veloz

(a besuntação do unguento (irromper o quê corromper

qual qual texto -))

embrulhar pastosamente o plástico dos dias
a gradação
vegetativa descritiva e doméstica das vírgulas

(vagamente masturbatória

mudamente fissurando o olhar

(parentesis recto mastigar circular analisar

emudecer mudar

ao fim do tempo tempos
todos os verbos se opacam
acolando tremuras

cuidados de si reflexivamente

intransitados

esmagar a cabeça nas laranjas diluir horas

persignar prelúdios perder direcções

- vai vai atrasar o texto ))

beber à boca do glaciar

desaparecer) se (no texto rio

para sempre sempre apesar cada

instante





imagem: William_Wood_Untitled_2007

quem de entre os bichos trocará o passado de enganos com futuro
uma tentação natural para o engano
para o destino errado
para a procura mas para o erro acertado
alimentar a confusão imaginando-a voadora
e crescerem penas coloridas como convicções
e poemas floridos e melodias entoáveis que de vez em quando
de vez em quando
distraidamente
confundam a perturbação de todas as verdades do destino errado
a suspensão da espécie
o gesto parado do saxofonista
o silêncio entre os namorados

quando ao sopro a melodia não descansa
continuam perdidos os pássaros
parece
indefinidos na suspensa espécie
continuam os pássaros com a espécie suspensa
são alguns, os riscos da indefinição
parece
o súbito apagar da luz
a surpresa como um estampido de surdez
(a eternidade)





voz es







nunca pude usar a voz.

sei que era importante mas nunca pude usá-la.

- quando a usei não soube como fazê-la ouvir.

tinha também idenficado a própria invisibilidade não como ralph ellison fala da nua invisibilidade

- fala no invisible man

não

assim:

- era duma negritude branca que falava

ou talvez de algum modo

- de todos os modos?

fale da minha pessoal invisibilidade foi então que percebi que estava lá em cima muito além de

qualquer voz de qualquer desejo a olhar que o fio terra se tinha há muito e para sempre

- o meu único para sempre

que bra do

que o meu estado era o de uma paisagem a leste do sono

- nem por isso singular

somente e tão somente integrada num caos in orgânico apenas só isso

- ex tensa casual melan colia do destino

comum

e na da mais

- en tretanto?

dia após dia

tardes:

- diz me

quando a interrogação se infiltra na raíz das palavras interroga menos ou

mais









i
magem no excuse Paulo César

dos momentos que escorrem não teriam que deslizar líquidos
a saliva
o ar
a saliva pelo corpo do saxofone

um desenho elementar: o ar
a falta de ar soprada em tubo dedilhado em procura de ar

outro apontamento evidente: sons
na ponta da asfixia e do sopro: sons inventando sentidos potenciando fés crenças lógicas
sentidos
significados
crenças
instintos
a invenção do instinto e da natureza em cada um como se fosse impossível outra forma
outro modo de existir
outro modo de morrer
de transcender

desculpem:
sobre o amor deveria ser mais fácil escrever, um romantismo superior, a luz de uma vela iluminar a cena ténuemente apagada:

nos olhos fechados
o cheiro orientando o toque
o tempo que desaparece num beijo deveria ser eterno

o equilíbrio do meu corpo espetado contra o teu deveria sossegar o abandono do cão ao tempo
ao espaço
ao frio à chuva ao vento na infelicidade do focinho
ao destino inexistente
mas não:
os domingos sucedem-se
os domingos não terminam
os domingos repetem-se
até não gostares mais de mim




.







ai o que diria jim san a este

grito se
me


bebesse



o vento agreste [

suave vento


intemporal

e

infinito












imagem de Henk Auwema

pousando o saxofone,
a urgência sente o homem sente em dizer amo-te;
ou amor meu;
a necessidade de olhos fechados

a música escolhe lábio que a sopre,
repete o pensamento repegando o saxofone,
o corpo dela adormecido entre lençois:
um conjunto de melodias perdidas no quarto suspenso de que servem?
que eco e para quem?
o que irradia deste sopro amplificando que sopros de outros?

a facilidade entrega ao homem entrega o saxofone à mínima hipótese de um dueto,
uma mão pequena que lhe guie momentaneamente o solo

porque nos sujeitamos à mais terrível das danças?
porque nos sujeitamos à mais dolorosa das imagens cegas?

porque alimentamos a vozes que nos chamam?
porque nos lançamos no fogo errado?
porque assobiamos músicas impossíveis?
porque oferecemos a cobra aos dentes?
porque carregamos o saxofone?
porquê a oração?
porque nos sujeitamos à mais terrível das questões?

a facilidade com o homem sopra no saxofone a melodia mais amorosa
para sempre
a urgência
a necessidade vital de o fazer
e depois sair para tomar café e comer torradas

o homem fechado no quarto: a porta batida em silêncio para terra
o quarto aberto na totalidade para o mar
um quarto descendo do céu
o homem subiu pelo elevador na procura
transportando um saxofone
o homem encerrado no quarto aberto sobre uma lâmina recorrente, oxidada, cortando o horizonte insuportável; deve sangrar o mar cinzento, muitas ondas, muitas notas sopradas ao saxofone
mas nada
deveria caber tudo mas tudo no interior de uma melodia
repete o pensamento ao guardar o saxofone
de onde vem a tua voz?
ao abrir a porta para terra
como escutá-la?
ao descer as escadas







eu sei que esperas


resposta


do deserto ao deserto

da música à música


na dúvida a
dúvida


mas eu já só teço uma casa amarela


de linho lençóis à garganta das silvas


luzes muito longe em


fontes de vidro


a traça da língua no fundo dos dias


gravar-me canela chover-me erva doce


poça de água espelho


em pulso de rio







imagem de Wang Guang

e ainda há a observação
de que andam como sempre voaram
os pássaros perdidos andam
à direcção do corpo sem corresponder a da cabeça sem corresponder a do voo já não se mencione o sentir
o inexplicável sentir
o inesgotável insuportável sentir
andam por encontrar:
a ilusória direcção
a sensação do norte
o magnetismo do significado com sentido
o insuportável sentido
observem-se os olhares
não o bater de asas mas os olhares e os cabelos complexos por arrumar
escutem-se os silêncios
não o barulho do corpo em convulsões aéreas mas a suspensão caída no céu
o barulho que fazem constituindo eco estrondoso contra um céu explosivo de fés
de més
chulés
de crenças
avenças
encontra agora uma fotografia e apontarei exacto com evidências os pássaros perdidos em mim
aqui
e aqui
e ali
e aqui
os anjos vazios
se não compreendendo
se não entendendo
se não percebendo desempregados da função celestial
espécie de social sexual
ao meu sopro espanto tudo
ao meu sopro tudo espanto e espanco
e todos congrego ao meu som todos convoco num espantar como um suicídio
um tornar a si
(relembro tuas as palavras mágicas levedando que pão à calçada nocturnamente marginal à praia)
(relembro nomeares a areia estranhamente lisa apontares como cimento estranho de areia lisa
compreendes agora o mistério
onde estavam os pássaros
as suas dedadas suspensas
como um suicídio
um-tornar-a-si
ao meu toque o poema se termine
e sossegue
aguardo um telefonema
podias convidar-me para jantar
espantar-me os pássaros asfixiantes da boca do saxofone
são todos lá
ia para padre se soubesse ir e as penas fossem de outra cor
translúcidas
confesso
a ti me confesso
e virias comigo mesmo cá dentro no meu interior mesmo que não quisesses que o meu desejo já não é meu é dele próprio
seria eu cuspido por mim de mim próprio restando tu
poucas dúvidas
confesso-te-me
confesso-me-te
virias comigo e surgirias à noite na brilhante melodia da oração da noite
como cobra da catarata
um fio de luz enrolado ao pescoço como um belo lamento para a vida toda
e finalmente silêncio verdadeiro
e sossego
e paz
e outra coisa qualquer que não sei
mas seria bom
poucas dúvidas


.




continuo sem saber como me despir pela boca sem que o sopro se não gaste ( sopro na linha imaginária pauta flutuante o ar e a pele cansada as rugas que tarda já noite noite ainda tarde


canse ( não canso


desista ( não desistirei


me asfixie ( adormeça calado


porque espanto vital é perceber que a coisa mágica muitas vezes não tem penas como penas aparecem as coisas mágicas ( que não se explicam os pássaros já eu sabia e por isso e não só por isso não se pergunte mais




as palavras vivem entre nós mas vivem por elas próprias ( respiram e nascem como de facto seremos tão nus nas palavras a vida está tão fora de textos leituras arrufos cadenciados de notas anotações leituras paradoxais




conhecer o esqueleto: é uma entranha: espanto vital é quando silêncio: que nem sempre lhes apetece ser ditas, nem sempre bonitas ( o tempo de silêncio em que as formas se destacam no ar tão espanto a decorrer a jusante das horas frugais




apaixonei-me em tempos por uma bailarina do lago dos cisnes, entrei-lhe no fato para não lhe perceber a nudez ( somos o que sabemos que nos reguarda em todos os fatos podíamos entrar subitamente desaparecer em qualquer deserto parar sempre deixado um rasto rubro de festas por dançar




é imatura a anotação: quem já não cegou acender da manhã?; mas quem não gostaria de continuar a ver? ( quem não se despiu assim tão cego e se mostrou na claridade e na sombra osmose rasto esqueleto em construção dum abraço...?




o meu sopro: que há-de o meu sopro fazer de mim que gostaria tanto de ter penas e ser leve

etéreo

leve e eternamente feliz sem me preocupar

sem me preocupar

com o não te pisar na dança de ontem à noite











imagem Identical Souls Alberto Viana de Almeida

apesar de sabido o ciclo da fogueira,
da queimadura à cicatriz,
recomeçamos sempre e com um beijo:
é impossível que a pele se não queira estalar:
ao olhar-te o olhar
ao olhar-te o cabelo
ao olhar-te o lábio tão próximo que não se perceba a não ser de olhos fechados a arder;
a fogueira sabe que à cinza a nossa mão ateará sempre a temível flor do incêndio,
bastando-lhe aguardar pelo regresso do concerto
e o lábio cortado pelo sopro

1931 MARIA GABRIELA LLANSOL 2008

"(...) a esta hora,
na sala comum,
a musicalidade do sol deve ser absoluta,
e quem toca violoncelo é o mais jovem com os dedos do mais velho"
in cantores de leitura


.








se diga não diga


que lisboa à toa


se lava


calada


na ponta dos dedos


na dança da noite


a ser quase


nada






.





e vai-se compondo o quê, o quadro, a fotografia, a semana,






a direcção aguardando por nós em inesperada praia da noite, o chá aguardando por nós, a orquestra dos pinguins do café, os nossos lábios aguardando por nós em inesperada praia da noite

o medo esperando pela nossa felicidade



a tarde inclinou-se toda a tarde para o mar.
se o não vira morria de falta de ar.
ouve:
como quando me puxavas pela mão ou pelo nome e eu ia sem precisares de forçar muito.
é difícil encontrar um bom vinho sem o abrir.
como um excelente instrumento musical sem o fazer soar.
estranho ter encontrado quem gostasse de jazzar comigo.
sei o quanto é dificil tocar o mesmo tema de modo sempre diferente.
quando afirmo que é uma questão de morte riem-se.
olho em volta e vejo deserto e receio sofrer ali sem ti e escolho uma das relativas direcções.
preciso unicamente de saber a tonalidade em que está escrita a melodia.
não é virtude.
é pânico:
depois fecho os olhos e procuro perceber a tua voz, de onde me chamas ou poderás surgir.
na estrada marginal à praia há uma garrafeira onde encontrei o vinho que saboreio agora.
o teu lábio ferido do longo ensaio de saxofone sabe a cacau e na garganta há o rasto a frutos vermelhos


.









olhar a história

escavar o traço

desfazer o laço

[ de a Ç

so




.



o aumento no tamanho dos dias
já não há céu por trás dos prédios altos
que luz sobra
que posso ainda fazer antes que tudo se apague
que se pode conseguir para atrasar o lume das sombras
há um momento em que o amor cega
– e em que nada se pode fazer e tudo é impossivelmente possível,
em que tudo se faz
o instante em que os braços deixam de ser nossos e os músculos seus obedecerão à cabeça cortada da cobra da loucura
e não restará mais do que o menos
mais do que a luz da noite profunda do teu corpo
mais do que o eterno brilho queimado do erro
da oração
da impossibilidade da fuga ao dia seguinte
do inferno da fuga sem descanso ao mesmo espaço para sempre sem as cores dos teus olhos
pergunta sem sentido no destino que já é tarde
(já aguardei o silêncio que chegasse para a aula
já escutei a tua voz)
que posso fazer para te não raptar









nenhuma palavra saía à vista

do rio


nenhuma palavra saía


palavra alguma


saía nenhum


corpo


nenhum


vazio





.

que corpo queres
que palavra me pedes neste destino estranho
que sonho me arranhas na pele emprestada
que chão queres
pouco sei da minha vida
nem sequer se sou aqui
se cheguei com a melodia que ainda escuto
não devo ser mais do que um sopro deseperado directo à tua boca
duvido que sobre mais de mim do que um eco esquecido terminando o concerto
todas as noites toco para os meus assassinos o sopro que improviso ao saxofone
ou o erro
mudasse o destino para a oração onde me visitasses
parado
quieto
em paz

o que se conta da vida já a vida passou
tenho-a na mão como tenho nada, aqui não te acalmas daqui não partes
mas o jogo não é duplo, linear no número par de faces
aguarda-se qualquer coisa
o autocarro
que a manhã seja boa
um sorriso
pensar em ti
saudades
o que se sente e ela, a vida a acontecer
se lhe não dissesse não morras ela desapareceria
nunca, mas nunca, se deve deixar passar o momento de dizer amor meu
o instante e dizer não morras que te amo
agarra-te a mim
que a pedra não seja maior do que a tua carne
danças tão bem
não permitas que a sombra te tome toda
és tão cheirosa
que o vazio te não encha
gosto do teu olhar
que as lágrimas não sejam longas e infinitos afogamentos
segura-me
o teu sentido é também o meu
obriga-me a dizer-to
antes que seja tarde e morra antes
obriga-me a dizer-to

agora que o vento abrandou e a noite se assumiu descansando-me o passado em pecados segredos
a máquina chupadora do futuro me aspira para a direcção em que os meus olhos abertos
de susto usado
as minhas mãos em palma horizontal ao céu
tudo parece mais calmo
ouve:
podem os meus olhos abertos de susto usado perceber outra indefinição
como um tempo que se não desliga
a tua voz
com uma grande esperança é enorme qualquer medo
é enorme a morte quando se acredita
compreendo-te
ouve:
como te compreendo o pequeno tamanho da ilusão
mas agora que me confundo no luto o meu canto diz mais coisas
quase nada
meu amor ou flor ou café e livros e laranjada e praia e casa e saxofone e música
e sinto-me capaz de aguardar em silêncio quase infinito com os meus olhos de susto usado
um sobressalto teu
um gesto ao acaso
um instinto pulo como um desalinho sem querer de bicho
do cabelo
de um verso em falso
ouve:
como no final se sabe melhor qualquer início
e depois

a fina canção se não se pode perder a fina canção
a voz se parte mais pela falta de uso do que pelo músculo da entoação
ouve:
quando me deito longe de mim
mesmo quando me deito longe de mim
a melodia que nos trouxe
a melodia que fomos fazendo
acompanha-me à guitarra o esquecimento
ouve:
a ténue canção
se não pode desistir da sensível canção
mesmo quando me deito fora de mim
acompanha ao piano o pássaro assustado
o som perdido
que te posso nesta hora dizer
se te posso pedir
ouve:





under shot, glimpse












e intacta embora à beira de ser-te


embora


ouvia sempre o subdérmico zumzum:


ninguém me quer ninguém me quer
ninguém


me


parado assim sumido o eco

tão calado de nos cantar ali



arranquei as sete saias sete varas sete vestes cor de carne:



branca carne seiva azul eivada a rosa
em brasa


para sempre para sempre sempre sempre e sempre


para





foto alicia pietras










onde neve leio cor


onde névoa solidão


onde boca gelo palavra


onde abeto leio aberto


(ou alberto sem semântica)


(na língua se enrola o mar?)


onde te ouço janela


traduzo poema como bolo de maçã


sou essa porta solar


e aos animais de veludo


aos satélites sem rota


abro as mãos de vento e rosas


de par em par









foto de Carla Salgueiro aromas






uma vezuma vezuma vez







uma vez fui imortal mas morri dum tiro exacto
disparado ao acaso

( ao acaso )

nu elíptico

casual a dor mecimento : chocolate, princesa

( de olhos de aço )


duros sapatos de ferro

(
e outra vez )

choco late



já alguma vez foste imortal como uma dança de momento ou uma melodia surpreendente
juro que esta tarde te levaria para longe
levar-te para longe
para onde se possa despertar sem pressa para perguntar


amor?


já morreste quantas vezes?


para a terra
para onde se pudesse adormecer sem o medo de que não regressasses


ou partisses


é que há tanta distracção para além da ferida
para longe onde as aves não nos abandonam ao eco
ao estampido


pegava em ti e levava-te para a terra


promete-me como um tiro exacto
onde é a casa







era a pesquisa minuciosa de um nome inteiro

pelo que te peço que sejas agora por exemplo

a casa de rosas

absorta na vegetação a balançar

brota da terra cresce como as sagradas plantas

sorve-se do vento liquidamente exacto

e as arestas se arredondam da cálida corrente:

pressente agora te peço fareja as folhas

segura a corda doma a raíz d
errete o som

aperta o peito

aprende o canto

inverte a carne

e despe-te fruto em vermelhas febres

antes que o vinho azede e seja tarde

.

e o eterno tempo
e o eterno tempo ainda é necessário mencionar no conjunto do corpo do espaço do som
da cadeia de sons
há-de surgir o poema ao contrário
do fim para o início
sem esforço adivinha-se toda a vida
adivinha-se que o relógio parará
o pulso frio
abandonado pulso
tudo na cabeça de um homem
tudo na cabeçada de um homem com as coisas do mundo
há-de surgir a história contada era uma vez
um sentido de vida para distracção
para passar o tempo
para te ter na mão
seremos para sempre felizes meu coração
peço-te
pressente-me

uma porta que abra para lá e abra para cá assim como uma flauta que tocando para fora entoe no interior
dentro ser dentro e fora para além
ou
dentro ser debaixo de pele e externo uma espécie de invisível vento sentível no resultado do seu gesto
os teus cabelos que esvoaçassem
(nunca te vi junto ao rio em esplanada de voo)
o movimento curvo do teu olhar
(nunca te vi junto à tarde em café de chuva)
mas
há-de crescer o corpo no qual será impossível o teu toque
um corpo enorme tão grande tão a perder de vista como um chão
e dir-me-ás onde pisar
peço-te

há-de formar-se o intenso espaço único onde o mesmo tempo da sensação de que o destino é outro
nos sentará
lado a lado
peço-te

há-de formar-se a enorme cadeia de sons com que te quero falar
aguardo como se eu fosse dias
e estes se sucedem interminavelmente para além de mim
já se pressente
peço-te

1925 - 2008: Luiz Pacheco





.


crua

margem

nua

.

tua

:

sinal

da

cruz

:

vendaval

aço

:

frio

ri-s-o

despido

de

chocolate


.








foto: mystic river Carsten Heyer



glimpses





o que primeiro vi logo depois das gymnopédies vi as palavras partidas o caos dos pés seguem-se cortes os cacos das palavras o que revi o que vi foi que

te vivia

vivíamos assim ali naquela piscina de azuis eléctricas águas tenho essa necessidade de repetir tranparente água apesar do sujo que era das coisas que flutuavam emergindo ao longo da superfície era tudo tão intensamente verde e azul repito excessivo sendo ali tão nós tão cor tu falavas mas só dos dedos

te ouvia

um dia um dia de flutuação tudo num só dia antes das cerejas e das pêras e de muitas coisas breves como outras mais longamente fomos assim num só dia e depois muitos dias imensos antes da menina nascer havia de se chamar como os contos nos livros amarelos a preto e branco ainda antes de tudo extensamente

te acontecer

aconteceu-nos um único dia de meses atravessando a esbracejar a trepidar a tropeçar num a doer as pernas de

te correr

a fio e o peito de atravessar num tropel afogada de asas ainda antes pensei quando fosses na direcção a cabo verde andavas sempre a

preparar-te

andanças e danças onde não era senão eu um corpo levíssimo demasiadas penas a

flutuar-te

quando antes te sabia assim amarelo verde agora ainda mais azul quando partires ai quando

te fores

aí na direcção de todo o mundo a caber-me num mindelo suave de pulsos abertos mapa líquido de olhos a correr voar a praia branca e não penses que não

te conheço

de cor na raiz mais profunda do desejo ainda antes de seres tão actor não penses assim na morte dos olhos nos cortes o vómito que não como sabes assim nem penses





foto de Paulo César









se o mundo está cheio de natais


se o mundo está cheio de


se o mundo está cheio


se o mundo está


se o mundo


se o


se


?








foto Christian Mayr



se estivesses por aí como um dueto em concerto. imagino que não sejas. imagino que estás. consegui os filhos. dormem atrasados. porque escrevo tanto porque falo tanto. é-me mais fácil a limpidez de uma melodia. cheirei-lhes a pele ao deitar. dormem atrasados. a ideia de comer alguém de quem se gosta. de o incorporar em nós. a filha disse vou engolir os teus olhos, papá, a filha disse. a culpa de os trazer no nosso destino. porque escrevo tanto porque tanto falo. em mim o destino é torto. o saxofone é torto. fecho os olhos comidos pela minha filha e ouço-lhes o sopro em trio. como é bonito. a melodia curta e saltitante. a melodia fresca e ingénua. a melodia sorridente e gozona. é impossível não sentir medo da morte. estás por aí? ouve: é impossível não sentir medo da morte enquanto brincam com o saxofone que pousei no sofá. e morrer tanto enquanto observo os seus sonos. estás por aí? ouve: dou a luz que for na escuridão que lhes surgir, dou o som que puder no silêncio que os assustar. mas rebento tanto. durmo tão atrasado nas suas vidas. vou tão adiantado em lhes desaparecer. e não sei o que há no meio (já chegaste?


regressei. continuo sem imagens. mas conto como tudo se passa: uma sala, uma sala eu e o saxofone: e uma melodia escrita. é como se passa: ler. pode demorar até que se saiba todos os sons que uma página contém. mas não é segredo impossível o toque. tal como se escutou já da fundamentalidade da leitura com instrumentos musicais. fecha-se os olhos. encerram-se os olhos para mais ver. e o que se vê se não se afigura em símbolos ou em palavras. é outra coisa. é outra coisa. já dei por mim a soar vozes que não sabia em mim. não consigo falar duas horas após o concerto. continuo sem imagens. não lembro as histórias mais importantes. o início da revelação é duro. um salão de solidão a doer. um tempo a doer com a porta da rua fechada. um saxofone como um martelo como um machado. não há segredo. o trajecto é a interpretação. a interpretação é a luz. a luz é a cegueira clara de um novo quarto encerrado. entrar ou não entrar. e jamais nos tornamos deus. músicos, aprendizes. mas o que pretendia mesmo era sair. e descansar em paz no teu colo. sem revelação alguma. os lábios cansados do sopro. morder-te com força o pescoço. penetrar-te violentamente por trás. foder-te. comer-te a cabeça. gritar mortalmente no teu sexo: salva-me






glimpses







o que recordava então era que podia ser outra estação ou o fim de um tempo de vidro teu - o teu tempo ali assim primeiro sentado depois de pé quase um pé. quase esticado o corpo lento como os gatos ainda antes de quando de súbito

abriste uma janela

que me apressei a fechar-te no meio do peito sabia que todo o cuidado era pouco que morrerias facilmente como tudo o que me tinha morrido nas mãos tudo o que podia cair e ficar rente ao chão ao abrigo de casas e edredons

tudo o que ignorava porquê.

era inverno um inverno onde os cabelos continuamente molhados secos baços.

os teus não se viam ou raramente ou se por causa desse brilho mais abaixo chamemos-lhe olhos e digamos que havia aquela cor lá dentro

talvez não tenha ainda pronto o nome a dar à cor
(ou eras tão mais branco tão menos branco como de facto eras?)

inventava ali um cuidadoso mapa de água.
a fulguração momentânea do sol qualquer coisa animal que se lambia à superfície e flutuava

perfeitamente imóvel





dia de sol: água azul de vidro


atrav



esso




foto Oliver Heile

o segredo surge-me dos dedos, no modo como abro a porta entrando no espelho.
o espanto.
é-me incomparavelmente mais fácil o interno de uma harmonia.
está bonito.
a mudez do reflexo: quem está aì? ainda és tú? quem nomeias?
não trago a viola, não trago a flauta, esqueci ou confiei, não sei, resto agora nú e frágil ao olhar-te.
é muito mais fácil a orquestração para qual melodia antiga.
quem está aí? ainda és tú? quem nomeias?
a terrível certeza de que por trás deste espelho há um passado do qual se não fez parte.
como é impossível.
não trago imagens.
não consigo.
esqueci ou confiei, não sei;
deixa-me voltar atrás, fechar os olhos e fechar a porta, voltar atrás fechar os olhos e fechar a porta, buscar a guitarra a flauta o concerto de corelli, trouxe um concerto de corelli para estudar, um concerto de corelli para tocar, agora lembro, não me posso distrair

glimpses








a primeira coisa que te vi no banco do jardim o anel ainda antes de corrermos desvairados pela praia aos gritos ainda antes de cairmos a cara na areia húmida na noite ou

das noites todas ali antes de repente em cima de nós quase náufragos a alma em farrapos ao vento de tantas ilhas estavam todas as

ilhas da noite ali onde

na praça da república o banco era inverno os cabelos empastados em sal era um inverno às vezes gélido e sempre tanto o frio o quarto eras tu quando chegávamos

sempre as mãos contrictas dos caminhos de tão longe dizias monchique eu dizia serra nada dizias danças e eu a leveza absurda das mãos e depois talvez me sumisse no teu colo lateral ali assim quase

dizias casas amarelo nadar azul livros auster a saltar-nos pelos olhos e disseste que aí nos salvávamos à última da hora

dizias estás sempre a dizer-me




foto, Staden S







ocorrera-lhe de repente que um corpo ocupava um espaço.

mas não.

descansava transparente com um sorriso eterno.

descansava por fim: de tamanha miniatura aliviada.





imagem, thomas illhardt

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