tender para um grande silêncio
~
as amoras silvestres lembravam amigas antigas nascidas viúvas
sem qualquer intenção de viver pralém do primeiro olhar
[ admirava-as por isso, esmagava-as docemente e logo eram
[ de rosasiventos a 24.11.10 3 comentários
alegram-se os panos cinzentos que vão tapando o céu.
a caminho do palco deve ainda chover.
nesse canto me escondo. nessa luz
e nada a esconder: a melodia torta, directamente torta, um berro, o choro, ao silêncio maior de palavras. cada vez maior
nada a dizer: daqui ali - daqui ali: a melodia torta, directamente torta
é verdade: o vazio a encher a encher a encher
adormeço surpreendido por mais uma vez não ter já acabado
[ de rosasiventos a 23.11.10 1 comentários
o meu vazio é enorme.
a minha solidão é enorme e profundamente minha.
a minha solidão é enorme e profundamente minha -
e sou eu dela como não gosto de ser.
nenhuma palavra me cala a dor.
a dor é enorme e inflamatória.
nenhum corpo me acalma a vontade de desaparecer.
desespero é a música que sopro.
pensam que é vida em festa.
mas o meu vazio é grande.
muito grande.
guardo o saxofone amplificador: colocar fora pela boca o nada que me sou.
soou.
suou.
não sei porquê o escuro.
também não penso sobre os motivos que me levam a soprar todas as noites.
adormeço espantado por tudo isto ainda não ter terminado.
[ de rosasiventos a 20.11.10 1 comentários
por todos os lados a circunspecção enigmática das montanhas de silêncio ecoam emes de xises de mantras omprolongando se nos ecos de sempre eu a balir alongada numa prolongação silenciosa terminada em caves geladas de criptogramas e fungos frescos
a colher do vermelho odores a groselhas silvestres acidulações como ainda a preto e branco um bergman silvestre orvalhal
nós progredindo de gatas - lombares de chuvas o chão às tantas apenas curvas as páginas as lágrimas de medo liquidamente - submerso-cais de adormecer por esperar
ventos transportando a doçura take me take me now
semear açucenas na sopa da fé a morder e o pão de sempre a mastigar-me numa convexidão consentida,
da primeira matéria da respiração profunda jugular meu-teu-rio-de-sul-a-norte pequeno comboio-meu-só-criança à volta da sala - gotas de vidro liso fervendo as primeiras-primeiras das muitas-muitas gotas pareciam águas - que águas
[ de rosasiventos a 17.10.10 1 comentários
vou contar que apetece tanto falar e fico calado:
acontece ir na rua e apetecer tanto falar e continuar calado:
a voz do saxofone é a minha:
será como o som antes de se enrolar em palavras:
os urros
os gemidos
e o silêncio
apetece dizer-te e
os urros
os gemidos
e o silêncio
[ de rosasiventos a 15.10.10 3 comentários
o som curvo ocupar coisa da palavra
quanto mais fio de melodia maior oco como aumento de vazio
o concerto como silêncio
o concerto como fundo muito fundo
que dizer
como fundo muito fundo
muito fundo
[ de rosasiventos a 19.8.10 2 comentários
esse calor de anúncio
que encaminha rectamente os povos
num balanço agourado
esse calor recto - faca perfumada
[ esse riso de junho a dezembro
traz-me reis de penas e palavras
ai flores do verde piño breve acaso
alambreados gestos esboçados
a dolência do pó o bafo a cor dourada
e a dança - uma-só-dança
dorida magoada [ e magoada
[ de rosasiventos a 26.6.10 3 comentários
~
a href="http://4.bp.blogspot.com/_iehPwdVH324/S8zuR-Dy3EI/AAAAAAAAArg/w_84AFSZO4Q/s1600/
last+days+before+the+flood+Yun-fei+Ji.Jpeg">
[ de rosasiventos a 20.4.10 1 comentários
[ de rosasiventos a 17.1.10 6 comentários
"desaparece o som com uma facilidade surpreendentemente: a dificuldade de o fazer surgir quando se pretende e como se deseja: moldá-lo: para que nos sirva servirmo-nos dele servindo-nos: servir-se ele de nós nesta espécie de voz única: este canto que atravessa o corpo com o espeto do tempo: escrevo da melodia, da improvisação, do regresso ao tema, etc (anoto do etc); e como é igualmente: complexo o domíno do sopro, da língua, da articulação, da pressão dos lábios sobre a palheta de modo a que o som desapareça em silêncio e nós com ele sem pretensão de eco
para uma boa interpretação musical são necessárias muitas horas de prática técnica diária sobre o saxofone
desaparecer com qualidade exige longas horas de prática técnica diária sobre o saxofone
a imagem: existir distância alguma entre o sopro que da boca sai em vida de som aos dedos que morrem no frio das chaves
entre: a vontade que tenho de te rever e o corpo que te não pode tocar"
[ de rosasiventos a 12.1.10 5 comentários
.
uma acre antiga perfurante metabólica herança
há um fio despido de branco dolente de frio
] anacronias de elipse espiral
[ de rosasiventos a 9.1.10 2 comentários
.
"inconsciente baixar à penumbra,
a pálpebra, a persiana,
como que para melhor ouvir o fio que se desenrola dentro da cabeça:
a melodia surgirá de um sopro no escuro em procura cega:
o sopro ecoando a culpa
"
[ de rosasiventos a 15.12.09 3 comentários
.
havia um rio frac-cionado
um rio-des-conhecido
] um delta, não-dois, um rio,
inpel-ido a rosas e
ventos
era assim um rio
embeb-ido
um delicado rio
in-delido,
[ ou-via o murmú-rio limpo
das canas-no-rio
] su-ave-asso-bio,
.
[ de rosasiventos a 8.12.09 3 comentários
.
quando o encontro é entre pessoas que se conhecem nada ou pouco: o modo de estar é diverso e a haver conversa será diferente:
quando a questão aflorou o porquê e o sentido de ensaios regulares entre músicos que esforçam a improvisação como modo de tocar:
quando o encontro acontece entre pessoas que se conhecem bastante, muito, de jeito íntimo, a conversa poderá ser mais profunda, atravessar a pele, as melodias significativas
(dispensando até a própria a palavra)
apetecer falar-te agora pode parecer uma conversa entre dois estranhos
há tempos que não te escuto soar
desenvolvi entretanto uma técnica de singin`blowing
etc e etc
etc e tal
.
[ de rosasiventos a 13.10.09
.
"slow dance": john coltrane (saxofone tenor) with the red garland trio (red garland, piano; paul chambers, contrabaixo; arthur taylor, bateria).
"se eu quisesse endoidecia": terá sido herberto.
.
[ de rosasiventos a 11.10.09 1 comentários
.

[[ e deus disse
faça-se uma coisa par ce lar
e aguda <
uma coisa chamada eterna-
-sombra-manchada-de-verbo s
[ e todas as coisas se fizeram
de imediato
e deus viu que era bom e que também era
pés simo e
des contente da sua obra
[ fachada e nó-cego ]]
[ de rosasiventos a 10.8.09 7 comentários
.
.
[ de rosasiventos a 3.8.09
.
o concerto de ontem foi muito bom, johncalldatrain em grande empatia, melodias bonitas provocando uma certa dança, harmonias complexas apelando à inteligência e assim, vento morno na figueira da foz e salão com muita gente a motivar.
"às vezes, quando te olho nos olhos, juro, consigo ver a tua alma".
disse-mo em inglês, enquanto eu arrumava o saxofone.
saberá ela da escuridão? do vazio? do segredo?
.
[ de rosasiventos a 3.8.09
.
em verdade em verdade vos digo
que nunca me zango e menos
re-volto
e aqui juro que a única língua que ouço
são todas as línguas:
são as línguas de fogo
as vozes misteriosas dos animais e
as vozes cálidas dos mortos
,decerto não excluo aqui que
à medida do meu tímpano falível -
- se é de tímpano que falamos,
poderei ainda escutar atenta e
o som dos pés nas folhas inconsoláveis
a respiração decidida da virgínia woolf
a entrar na água
um saxofone, piano, uma harpa ou
o roçar acetinado das asas do anjo e
ainda e ainda, a
estrela cadente tonta de sono
que escorrega no céu tão perdida tão
[ de rosasiventos a 31.7.09 6 comentários
compreendo a revolta: é efectiva a questão entre quem improvisa e quem escuta; existe penumbra em margem do palco, na fronteira da plateia; existe penumbra entre o olhar fechado de quem soa sob a iluminação de um foco e quem de olhos abertos todo escuro quer decifrar; em quem improvisa a permanente sensação de asfixia arrisca audições complexas; quem assiste pode não entender o que lhe vai acontecer.
quem improvisa sabe que o jogo pode ser mortal e não percebe
quem escuta sabe que o jogo pode ser vital e não o percebe
quem escuta pode arriscar apreciações definições e afirmações e lógicas
em casa suspeitam que não toque tudo; em casa suspeito que não toco tudo
[ de rosasiventos a 21.7.09
casa - público - casa - onde?
no tecido infinito,
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[ de rosasiventos a 20.7.09 2 comentários
em casa aguardam que soe sempre bem. nem sempre conseguem imaginar o esforço: como a melodia surge e se enrola e contorce sem mim: em torno de mim: para além de mim: o interminável esforço: procurar procurar perceber entender o seu caminho
um concerto é ir lá e tentar e procurar
em casa imaginam que toque para eles; toca-se para alguém; quando fecho os olhos abrem-se outros na minha escuridão em pânico: a melodia que me estranha é a corda com que procuro
(um vazio imenso tento eu encher soprando esvaziando o som para que o oiças)
quando os abri já havias saído, o público gostou bateu palmas e já havias saído
[ de rosasiventos a 19.7.09
.

impressionou-me sim ouvir-te
impressionou-me a voz desconhecida
a expressão despida
o anjo cansado que te acompanhava
a urgência exigente da guitarra
impressionou-me
a beleza cruel do saxofone
o anel no dedo sem significado
impressionou-me
a voz cava e unifónica dos animais
o burro de orelhas o muro a lagosta
e o outro... era uma ave?
] um fóssil... inidentificado?
impressionou-me
o homem gordo a rebolar escada abaixo
no seu fato branco de metal
] ancorado por fim às minhas pernas de barro
[ o legume era uma beringela abe rta no cartaz!?
ulisses e o fantasma do minuto de comboio
[ o coração fechado do cartaz...? e
os teus olhos entrementes-pálidos-entretanto-suados
] - Johnnn n n, Call Da Trainn n n !!
mas o que me impressionou mesmo ] e mais e mais
foi que me procurasses
[ que batesses à porta do teu calendário
para me confirmares que não-estava
.
[ de rosasiventos a 17.7.09 4 comentários
.
ontem fui procurar-te, convite para tomar café. o desencontro era certo. o silêncio ficou confirmado. nenhum olhar fechado esquece a sombra que provoca. o lençol não apaga a forma do corpo que cobre. esta noite toco no café progresso. ontem demorei os arranjos para o saxofone tenor. a voz que não ouvi durante a tarde.
[ de rosasiventos a 15.7.09
.
aguardam em casa que o esquecimento não abranja o caminho de regresso. porque não se consegue tocar a mesma melodia de exacto modo: igual. o sofrimento pelo desvio é verdadeiro. é verdadeiro o desvio. é sincero e puro o inevitável contorno diferente do ar. aguardam em casa que sobreviva a cada concerto. e que regresse de modo parecido. parece ser inimaginável a estranha sensação em último compasso, a estranha sensação em silêncio terminal. repete-se o caminho com um passo certinho para que o engano seja possível e brilhante, eterno em instante, memorável, fantástico.
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[ de rosasiventos a 30.6.09
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sim
tudo - a - sangue
sim-sim
tudo a sangue e cardo
nenhuma música me acompanhou nesta morada
nenhuma nota clandestina
nenhuma música de fundo
nenhuma frase
na - da
e no entanto sim
tanto sangue sim
tanto sangue - d - água
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[ de rosasiventos a 24.6.09 5 comentários
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aguardam em casa que sopre seguro. morro na rua ao contrário da luz, quando tudo se apaga. acendo. abre-se esta espécie de boca que inspiro expirando som. não deve ser cruel - a vida ser uma morte e o inverso. problemático um pensamento fechado na cabeça querer sair e não conseguir. problemático o gesto que não ascende a um som com significado. afirmar que ando com o saxofone como quem anda com a botija de oxigénio. de pouco servirá se o fim for a sério. complicado é levarmos a sério esse caminhar com a botija. complicado é acreditar fortemente na botija. irracional é o saxofone. estavas muito bonita. não me ouviste mas estavas muito bonita. irracional é o saxofone.
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[ de rosasiventos a 26.5.09
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aguardam em casa que olhe seguro. como uma voz decidida. parecer uma melodia com toda a ciência. sabe-se que um improviso pode ser mortal. a mentira. a mentira pode ser uma bela melodia parecendo ensaiada e sabida. quem sopra jazz é mentiroso. quem o escuta gosta que lhe contem mentiras, gosta de ser levado, enganado. ambos sabem que o jogo é mais profundo, é de viver e morrer, ambos querem morrer a toda a hora sendo eternos a toda a hora. como é que ela enganou o fim, penso, como é que quebrou o previsto, como é que trocou a manhã que se aproximava.
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[ de rosasiventos a 15.5.09









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